OLAVO DE CARVALHO
No seu editorial de terça-feira passada, o Estadão
choraminga que "a Segunda Conferência Nacional
de Cultura, programada para março, foi concebida como
parte de um amplo esforço de liquidação
do Estado de Direito e de instalação, no Brasil,
de um regime autoritário. O controle dos meios de comunicação,
da produção artística e da investigação
científica e tecnológica é parte essencial
desse projeto e também consta do Programa Nacional
de Direitos Humanos".
São verdades óbvias, impossíveis de
desmentir. Mas vêm tarde demais. Quem há de deter
a ascensão do autoritarismo esquerdista num país
onde as facções "de direita" se enfraqueceram
tanto que já nem podem lançar um candidato presidencial
próprio e só lhes resta escolher o "menos
esquerdista", sem nem mesmo ter a clara certeza de que
essa gradação hipotética corresponde
a uma realidade ou a uma falsa esperança? Esperança
que, diga-se a bem da justiça, o próprio escolhido
não pode ser acusado de alimentar em ninguém.
Já passaram por essa mesma humilhação
em 2002, e nem isso bastou para alertá-las quanto à
gravidade do estado de coisas. Ao contrário, não
houve, no meio delas, quem não celebrasse como apoteose
da democracia aquilo que foi, com toda a evidência,
uma farsa esquerdista calculada e montada para pregar o último
prego no caixão da direita com a anuência servil
e até festiva da própria vítima. Quando
uma facção politicamente destruída não
tem sequer a coragem de confessar o desastre, isso significa
que internalizou a derrota ao ponto de já nem mais
poder pensá-la como tal. Sai da competição
e, apegando-se à mentirinha tola de que a surra brutal
foi apenas uma brincadeira entre amigos, passa a disputar
nada mais que um lugar de sparring na academia do
adversário.
Foi precisamente nessa condição que o sr.
Alckmin subiu ao ringue eleitoral em 2006: desmanchando-se
em demonstrações de polidez e bom-mocismo, omitindo-se
de denunciar os crimes do partido adversário, não
concorreu com ele senão para ajudá-lo a ocultar
sob um manto de respeitabilidade postiça o sangue e
as fezes que então, decorridos dezesseis anos da fundação
do Foro de São Paulo, já o manchavam até
à raiz dos cabelos.
Nunca um candidato foi tão vulnerável, tão
fácil de derrotar quanto o foi o sr. Luís Inácio
Lula da Silva nos dois últimos pleitos. Para destruir
não somente sua candidatura, mas todas as suas ambições
políticas quaisquer que fossem, bastaria mostrar, nos
debates da TV, o compromisso de ajuda integral que ele assinara
com a narcoguerrilha colombiana em 2001 e perguntar se, no
governo, ele pretendia ser fiel à sua aliada, traindo
os eleitores brasileiros, ou cumprir as leis do país
e tornar-se alvo do ódio do Foro de São Paulo
inteiro. Se o candidato nominalmente de direita tivesse feito
isso uma vez, uma única vez, ele seria hoje presidente
da República, e não haveria nenhuma "Conferência
Nacional de Cultura" ou "Plano Nacional de Direitos
Humanos" para assombrar as noites dos editorialistas
do Estadão. Em vez disso, o sr. Alckmin preferiu
dar a impressão de que tudo o que o distinguia do seu
adversário eram miúdas diferenças políticas
entre cidadãos igualmente decentes, igualmente democratas,
não separados nem mesmo por alguma divergência
ideológica substantiva.
Mas estou sendo injusto com o sr. Alckmin. Ele não
foi o único que, sob o pretexto de "manter alto
o nível do debate", elevou aos píncaros
a imagem de um inimigo que, já então, chafurdava
gostosamente, fazia uma década e meia, no lamaçal
da aliança entre crime e revolução, protegido
do olhar curioso do eleitorado pelos bons préstimos
de toda a "grande mídia", de todos os partidos
políticos, de todos os comandantes militares, de todas
as igrejas, de todos os intelectuais, de todos os "formadores
de opinião".
O sr. Alkmin não teve culpa nenhuma senão
a de ser igual, em coragem e senso de responsabilidade histórica,
a praticamente todos os demais líderes da "direita".
As exceções contavam-se e contam-se nos dedos
de uma só mão, mas duvido que a completem. Se
há cinco justos na direita brasileira, digam-me quem
são eles, e expliquem por que não escolhem um
deles como candidato na próxima eleição
presidencial.